REFLEXÃO À LUZ DA PALAVRA DE DEUS E DO MAGISTÉRIO DA IGREJA PELO FIM DA ESCALA 6X1
Paz e bem, gente boa! O profeta Jeremias, no capítulo 22 de suas profecias, lança um grito que jamais se calou através dos séculos: "Ai daquele que constrói a sua casa sem justiça e seus aposentos sem direito, que faz o próximo trabalhar por nada, sem dar-lhe o pagamento" (Jr 22, 13). Ao denunciar o Rei Joaquim, Jeremias não criticava apenas a falta de moedas, mas a opressão de um sistema que sugava a vida do trabalhador para sustentar luxos e palácios.
Hoje, em todo o Brasil, o debate sobre o fim da escala 6×1 nos convoca a uma reflexão profunda. Como irmão, não posso me omitir diante de um sistema que muitas vezes se assemelha aos "Joaquins" de outrora: uma estrutura que prioriza o lucro absoluto em detrimento da saúde física, mental e espiritual do ser humano.
A Primazia da Pessoa sobre o Capital
A Igreja não é contra a livre iniciativa ou o trabalho; pelo contrário, o trabalho santifica. No entanto, o Papa São João Paulo II, na encíclica Laborem Exercens (n. 12 vatican.va laborem-exercens), foi enfático: “o homem, como sujeito do trabalho, independentemente do trabalho que faz, o homem, e só ele, é uma pessoa.”
O trabalho é para o homem, e não o homem para o trabalho!
Quando a jornada exaure as forças a ponto de o trabalhador e a trabalhadora (com triplas jornadas já que também é mãe, é empreendedora etc) não ter tempo para os filhos, para o lazer ou para o convívio comunitário, estamos diante de um retrocesso civilizatório!
Muitas vezes, ouvimos argumentos "científicos" ou puramente econômicos que dizem ser impossível mudar. Contudo, como recorda o Papa Francisco na Laudato Si’, não podemos aceitar um "paradigma tecnocrático" que trata as pessoas como meras engrenagens de uma máquina. A economia que "mata" é aquela que nega a dignidade e o tempo.
Um trabalhador sem tempo para si é um trabalhador que, lentamente, perde o tempo para Deus e para a vida.
O Descanso como Direito Sagrado
Desde o Gênesis, Deus instituiu o descanso. Não porque Ele estivesse cansado, mas para nos ensinar que a nossa dignidade não vem do que produzimos, mas do que somos: Seus filhos amados. Quero citar Santo Alberto Hurtado, um grande defensor dos direitos sociais, que dizia que "o trabalhador é um irmão em Cristo, não uma mercadoria".
Negar o fim de uma escala exaustiva sob o pretexto de "prejuízos financeiros" é colocar um bezerro de ouro (Ex 32) acima da vida humana.
Uma sociedade que não descansa é uma sociedade sem tempo para Deus e que adoece, que se torna agressiva e que normaliza o absurdo, o mórbido.
Um Convite ao Diálogo
Minha posição aqui não é contra o setor produtivo, que tanto gera empregos em nossas cidades e no Brasil todo, mas a favor de um pacto de humanidade. É possível, sim, pensar em modelos que respeitem a viabilidade econômica sem sacrificar o solo sagrado da vida espiritual, familiar e da saúde do trabalhador.
Portanto, nos posicionemos e cobremos aqueles que nos representam para que decidam pelo bem comum!
Que o Senhor nos conceda a sabedoria para construir uma sociedade onde o trabalho seja fonte de vida, e não de escravidão oculta. Que a justiça e o direito sejam os pilares da nossa casa comum.
Fr. Douglas xavier Carvalho
Paz e Bem!
Outras reflexões:
História de santo Alberto Hurtado: https://franciscanos.org.br/vidacrista/calendario/santo-alberto-hurtado/#gsc.tab=0
https://www.catholic.com/magazine/print-edition/seven-principles-of-catholic-social-teaching








