SOBRE A SEMANA SANTA NÃO SER UM MERO FERIADO!
Começo essa reflexão reafirmando que o cristão não é um inimigo da alegria ou do lazer; pelo contrário, as festas são um ensaio para o banquete do Reino dos Céus. Não há nada mais belo e profundamente humano do que as celebrações. Sabemos da importância do lazer em família e do convívio social. O próprio Jesus, ao realizar seu primeiro milagre nas Bodas de Caná (Jo 2), santificou o vinho, o riso e o convívio, mostrando que a alegria é uma oportunidade para a fraternidade florescer e os vínculos culturais se fortalecerem. Como cristãos, entendemos que datas “feriais” não são apenas um intervalo no trabalho, mas uma expressão da nossa sede de eternidade e uma forma de honrar a vida que recebemos.
Entretanto, para que as festas não percam sua alma, elas precisam respeitar a gramática do Tempo. São João Paulo II, em sua carta apostólica “Dies Domini” (1998), nos recorda que os dias santos não são meras datas civis, mas "momentos de salvação". O Santo Papa já nos alertava sobre o perigo de o mundo moderno perder o zelo pelo sagrado, transformando o tempo de Deus em um tempo de consumo. Quando o homem ignora o ritmo do espírito para priorizar apenas o entretenimento, ele corre o risco de se tornar órfão de sua própria história espiritual.
É verdade, para tudo há um tempo debaixo do sol (Ecl 3).
Como harmonizar a fé que professamos com momentos que ocupam o silêncio da semana santa?
Quero lembrar-lhes que a Semana Santa não é um "feriadão" ou uma simples data no calendário. É o eixo do mundo. Naqueles dias, o tempo para. Na Sexta-feira Santa, o Universo silencia diante do sacrifício Daquele que deu a vida por nós. É um tempo de interioridade, de deserto e de acompanharmos os passos de Jesus até a cruz, para podermos, no domingo, explodir na alegria da Ressurreição.
Quando colocamos o barulho das celebrações profanas, por melhores que sejam, em cima do silêncio do calvário, corremos o risco de sofrer uma "anestesia da alma". Como disse o Papa Francisco: "Vivemos em uma sociedade que troca o eterno pelo efêmero". O perigo não são as festas e viagens em si, mas a inversão de prioridades que elas sugerem: os churrascos sobre o jejum, os passeios sobre a liturgia, a distração sobre a oração.
Não escrevo para proibir ninguém de se divertir, mas para despertar o discernimento. O cristão de Hidrolândia é convidado a uma escolha madura. Como diz o Evangelho: "Onde está o teu tesouro, aí estará o teu coração" (Mt 6, 21).
Se nos dizemos católicos e cristãos, como podemos ignorar o mistério da Paixão do Senhor para nos entregarmos à agitação das festividades, passeios e viagens com tom de “feriado” justamente nas horas em que a Igreja, no mundo inteiro, está de luto e em vigília?
A materialidade, por mais sedutora que seja, passa. Os brilhos das luzes das festas se apagam no dia seguinte. Mas a graça de uma Semana Santa bem vivida transforma a eternidade de uma pessoa.
Minha sugestão aos nossos fiéis é simples: protejam o seu solo sagrado. Não permitam que o barulho externo abafe a voz de Deus no seu interior nestes dias. Hidrolândia tem espaço para tudo: para o lazer, para o passeio, para festas e etc. Mas a Semana Santa é terra santa. Nela, tiramos as sandálias dos pés e curvamos o joelho.
No fim das contas, a quem entregamos as horas mais sagradas do nosso ano?
Se a materialidade efêmera tenta se impor sobre o mistério do Calvário, qual será a nossa resposta como comunidade de fé?
Que cada um, no silêncio do coração, decida onde seu tesouro realmente está depositado. Que tenhamos a coragem de priorizar o que é eterno. Que a nossa cidade saiba honrar o descanso e os encontros, e também suas tradições civis, mas que nunca esqueça que a sua alma pertence ao Senhor da Vida, a quem seu patrono, Santo Antônio dedicou-se até a morte e hoje goza da eternidade de Deus e da nossa admiração de cristãos.
Nos encontramos nas celebrações da Paixão e na alegria da Páscoa.
Paz e bem!








