Paz e bem gente boa! Na ultima meditação que fizemos refletimos sobre como o homem perdeu o convívio com o seu Criador depois de pretender-se ser maior do que Ele. Quer dizer, o homem afastou-se da Luz, da Verdade e do Amor. E esse distanciamento não poderia ter outra consequência senão a morte do ser humano por suas próprias mãos, a morte de toda a criação pelas mãos do homem! E se tal tragédia da morte dos seres ainda não aconteceu, ao menos observamos claramente a humanidade voltada para esse caminho de morte, não de vida e de bem como nos convida o próprio Deus (Dt 30, 19).

Nesta III meditação quaresmal lhes convido a se perguntarem comigo: Como poderia a humanidade ter se tornado tão má? Como que é possível que ao ligarmos ou lermos o jornal nos deparemos somente com tragédias e maldades? Onde está Deus? Por que a guerra? A perplexidade diante do mal não é apenas um dilema sentimental, uma pergunta que a gente se faça diante de uma notícia ruim, mas uma reflexão da alma que quer descobrir o "mistério da iniquidade".

Como já lhes escrevi na II meditação: a humanidade, embora criada à imagem de Deus e destinada à bondade, carrega em si a ferida do pecado original, uma fratura na vontade, aquela “marca do prego na madeira” que nos faz, por vezes, usar nossa liberdade contra o próprio Criador e o próximo, o pobre, o fragilizado e excluído.

O mal é a privação do bem! É o vazio deixado onde o amor de Deus deveria habitar. Se o horror da guerra te choca, isso é prova de que você foi feito para algo maior, e o incômodo que sentimos é o vestígio da nossa dignidade perdida, gritando por uma paz e por uma justiça que, no fim das contas não conseguimos realizar sozinhos.

"Onde está Deus?" pergunta-se uma alma bondosa, confusa com a guerra e o mal, e a resposta mais profunda não é uma explicação difícil e distante, mas é um acontecimento, horroroso e doloroso como a guerra, um acontecimento que também nos choca e comove: a Cruz.

A cruz nos mostra que Deus não contempla a dor humana de um “camarote” distante, mas abraça ela através da Encarnação. Ele está no rosto do refugiado, nos escombros das cidades bombardeadas e no choro de quem perdeu tudo; Deus está onde o homem sofre, pois Ele mesmo se fez vítima para vencer o ódio, de dentro do ódio; vencer o mal, deixando-se chicotear pelo mal.

A guerra, por sua vez, é o fracasso absoluto da fraternidade humana. Na guerra, todos perdem! Ela é o resultado trágico de corações endurecidos que rejeitaram a promessa divina de paz. Onde o ódio parece reinar, Jesus está plantando, na resistência dos mansos e na caridade dos justos, as sementes de um Reino que não se impõe pela espada (Mt 26, 52), mas pela força invencível da ressurreição.

Aqui, quero lhes propor uma forma de lutar contra o mal, de resistir às ideias totalitárias e extremamente violentas que vigoram, principalmente pela internet afora. Para isso, voltemo-nos à passagem do evangelho de João, que será lida no domingo que vem, IV domingo da quaresma, próximo dia 15 de março e que é a seguinte: "Colocou lama sobre meus olhos, fui lavar-me e agora vejo!" (Jo 9, 15b).

Havia um homem cego. Havia um homem sofrido e abandonado. “quem pecou?” “que mal ele fez?”, perguntaram os discípulos. E também nós nos perguntamos “que mal fizeram as tantas crianças em Gaza e no Irã?”; “que poderia tirar de alguém sua dignidade humana, a ponto de não nos importamos mais com suas dores?” e Jesus mesmo nos responde nos versículos 3 e 4: “Isso serve para que as obras de Deus se manifestem nele. É necessário que nós realizemos as obras daquele que me enviou, enquanto é dia..”

A quaresma é este dia! A quaresma é a oportunidade de voltarmos a enxergar. As penitencias e desafios que enfrentamos neste período, quer dizer, renuncias, jejuns, acordar de madrugada para rezar os rosários enfim, tudo isto é este processo de “colocar a lama nos olhos” para que então na páscoa, nas águas batismais da noite santa da ressurreição do Senhor lavá-los e então, no amanhecer pascal, voltemos a enxergar que:

Não é a guerra e os orgulhosos deste mundo que tem a ultima palavra! Mas a paz desarmada e desarmante que só pode brotar de um homem e mulher renovados no amor de Deus. A morte não tem a ultima palavra. As dores e desafios deste mundo e desta vida não são o fim. Há um “depois daqui”, pois “Deus enxugará toda lágrima e não haverá mais morte, nem choro, nem clamor, nem dor, pois as primeiras coisas passaram “(Ap 21, 4).

Por fim, querido irmão e querida irmã, São Paulo nos dá a receita, na segunda leitura do IV domingo da quaresma, retirada da Epistola aos Efésios e que diz assim do versículo 8 ao 11: “Vivei como filhos da luz. E o fruto da luz chama-se: bondade, justiça, verdade. Discerni o que agrada ao Senhor. Não vos associeis às obras das trevas, que não levam a nada; antes, desmascarai-as.”

Que essa meditação tenha tocado teu coração. Oremos e trabalhemos pela Paz. Esperança, ânimo, Cristo conta contigo!

Paz e bem Hidrolândia.