Paz e bem gente boa!
Estamos na primeira semana da quaresma, já superamos a frenesi carnavalesca ou a intensidade dos tempos ordinários para adentrar paulatinamente no clima de penitência e sobriedade que nos pede este tempo.
Ouvimos na primeira leitura deste I Domingo da quaresma tirada do segundo e terceiro capítulo do Livro do gênesis (liturgia dominical) o retrato da queda da humanidade diante da tentação de querer assemelhar-se a Deus, por preferir um status à presença do Senhor. Com efeito, rezamos no salmo 49, 13: “o Homem com suas honras não passa da noite… é igual um animal calado!” (Tradução Ecumênica TEB). Adão nem pernoita no jardim! Logo cai… tropeça em sua própria ambição… Mas o que esse detalhe e essa observação têm a ver com nossa quaresma?
Bem, não vivemos numa realidade diferente da que é retratada pela tradição bíblica. Também hoje, e na verdade, principalmente hoje a humanidade cede à tentação de se colocar acima de Deus. De muitos modos isso acontece e atualmente já observamos sociedades, homens e mulheres que se dispõe a viver esquecidos da realidade da vida espiritual, anulando tudo quanto for transcendente para dedicarem-se somente ao modo de vida material, puramente instintivo e carnal. Guerras, perseguições aos imigrantes, feminicídios, corrupção, desgaste ecológico que impedem a vida digna e justa, especialmente aos mais frágeis e necessitados.
O que são essas coisas senão a consequência de uma humanidade sem Deus? Não era esse o desejo de Deus. Não existimos para viver longe d’Ele!
Nos versículos 7 e 8 deste trecho de Gênesis observamos um itinerário de amor que Deus se dispôs por nós: Primeiro Ele se apresenta como “oleiro” (modelou o homem do pó da terra), inclusive Adão vem do hebraico ‘Adamá’ que quer dizer “terra, solo, barro”, isso deve nos dizer muito de nossa relação com o mundo e as coisas criadas, somos parte de um todo! Depois, se revela “agricultor-jardineiro” (coloca o homem no jardim) e o jardim aqui significa relação-cuidado. Até Adão e Eva (que simbolizam todos os seres humanos, mas especialmente o povo de Deus) Deus mantém sua identidade de Criador Todo Poderoso. Mas depois deles algo muda, não na identidade de Deus, mas no modo como ele se revela: Agora Ele é Pai! Esse atributo muda tudo: Deus é relação. O homem criado à sua imagem é relação! O que isso nos fala hoje? Diz-nos muito do amor de Deus. Ele não nos quer aprisionados, mas livres, convergentes, amorosos e acolhedores. Como Ele mesmo foi conosco em seu jardim.
Tudo isso gente boa, para esclarecer o que a liturgia quer traduzir: O pecado desfigura o homem. E em Jesus Cristo a essência humana é resgatada, o pecado é tirado, agora recuperamos, em Jesus nossa relação com Deus!
Mas a humanidade não está valorizando esse movimento Divino para ser relação paterna de amor. Vejam ao redor, como anda o jardim, como está o planeta em que Ele nos colocou? E as nossas relações uns com os outros? Cada vez mais frias, rasas e indiferentes.
Quero ressaltar, portanto, o valor e a importância da Campanha da Fraternidade, que a cada ano quer recorda-nos que a conversão é uma resposta pessoal à graça de Deus, mas de consequência coletiva que busca resgatar a inteireza do ‘jardim’, quer relembrar a cada um que Deus modelou-nos para sermos irmãos e irmãs uns dos outros, para voltarmos com o coração para Ele e seu Amor.
Enfim, tudo isso para dispor em nosso coração que a quaresma também é chão oportuno para regarmos nossa relação com Deus, com os outros e com a criação. O pecado nos deixa cegos e indiferentes, e o amor de Jesus nos cura de tudo isso e nos ajuda a sermos mais solidários e cuidadosos e também abertos para a vontade de Deus.
Que essa segunda meditação nos ajude a enxergar o esforço que o Senhor fez e faz para se relacionar conosco, para nos demonstrar seu cuidado e seu amor e que essa descoberta nos impulsione a amar e a zelar por todos, principalmente aqueles que por todos são abandonados e desprezados pois o jardim de Deus floresce nas mãos que são estendidas!
Boa semana a todos, nos encontraremos na próxima reflexão.
Paz e bem!








