Estamos adentrando num tempo forte da vivência cristã, marcado por penitências e compromissos mais profundos e exigentes aos batizados. Desde sempre, a comunidade dos crentes em jesus aprendeu a se preparar bem para os grandes fatos da vida do Senhor Jesus. Bem sabemos: o advento, prepara-nos para o natal. E o tempo da quaresma, que adentraremos na quarta-feira de cinzas nos cultiva para a vivência intensa e marcante da semana santa.

Podemos nos perguntar, como de fato fazemos cada ano, o que é a quaresma?

Alguém poderia afirmar simplesmente: "Ah! os 40 dias  de preparação para a páscoa" e outro "um tempo de deserto, de maior interiorização espiritual" e ainda mais alguém "um tempo de penitências, rosários e desprendimento de coisas que gostamos".

Devo dizer-lhes que não há nada de errado nessas afirmações. E que, na verdade são muito verdadeiras!

Eu gostaria, porém, de conduzir nossa conversa aqui num caminho que passa sim pelas vias espirituais e penitenciais, pelas renuncias e pelo desprendimento, e passa também pelo forte convite que a igreja nos faz neste tempo a ajeitarmos e reorganizarmos nossa vida de oração, conversa com Deus.

Veja gente boa, vou usar uma metáfora muito simples:

 imagine uma tábua de madeira que foi perfurada por um prego, e ele foi arrancado. Ainda está nela a marca deste prego, permanece nela as consequências das marteladas. A tábua é você, sou eu, somos nós: os pregos e o martelo são a vida, nossas atitudes e escolhas erradas, nossos pecados e omissões. Mesmo que arrancado o prego, permanece a marca. Ainda que perdoados pelo Sacramento da confissão, vagam por aí as consequências das nossas más ações, sempre desdobrando-se em alguém e outras situações.

Trago para nossa meditação inteiramente o parágrafo 1434 Catecismo da Igreja Católica (CEC – Vatican.va – Sacramento da Reconciliação):

 “A penitência interior do cristão pode ter expressões muito variadas. A Escritura e os Padres insistem sobretudo em três formas: o jejum, a oração e a esmola que exprimem a conversão, em relação a si mesmo, a Deus e aos outros. A par da purificação radical operada pelo Baptismo ou pelo martírio, citam, como meios de obter o perdão dos pecados, os esforços realizados para se reconciliar com o próximo, as lágrimas de penitência, a preocupação com a salvação do próximo (27), a intercessão dos santos e a prática da caridade «que cobre uma multidão de pecados» (1 Pe 4, 8).”

O caminho quaresmal é um caminho de conversão não só porquê estamos em solo fértil para nos arrependermos de nossos pecados, não só. Mas também porquê é muito oportuno meditarmos as consequências deles, especialmente recaindo sobre os mais fracos e oprimidos. Neste sentido, chamo a atenção para uma caminhada maravilhosa que há décadas a igreja no Brasil faz. A Campanha da Fraternidade: que não! Não é uma campanha política, não! Não é campanha ideológica. Ela é uma campanha prática, resultado dos nossos exercícios espirituais deste tempo, tanto pessoais como comunitários. Ela é uma possibilidade de antídoto às consequências das nossas ações pessoais e comunitárias. Assim diz o profeta Isaías 58, 7: “O jejum que eu quero é este: … repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e desabrigados.”

O tema da CF2026 é "Fraternidade e Moradia" tal e qual o tema da festa de junho, a festa de santo Antônio em nossa cidade e paróquia. O lema é o versículo do evangelho de João 1, 14: “Ele veio morar entre nós!”, e eu acrescento aqui, relembrando a realidade do próprio Cristo em Mateus 8, 20, onde Ele diz “As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça”. Quanta profundidade e empatia tem o Senhor! A criação tem onde recolher-se, mas veja, observe bem onde “moram” muitos filhos de Deus?

Isso quer dizer muito a mim e a você: não estamos sozinhos. Deus caminha conosco. Não sofremos sozinhos, Jesus sofre conosco. Não podemos desanimar porquê Ele está conosco e sustenta nossos passos. Por isso, não desanime da penitência e da vida de oração mais intensa nessa quaresma, ao contrário, a certeza de que Jesus tá contigo te anime a prosseguir cada vez mais e a progredir na caminhada de fé. "Frei, tô meio afastado, tô meio distante… Tenho desânimo e preguiça de ir à igreja" eu respondo com uma canção própria deste tempo, na verdade, um trecho dela: "Eis o tempo de conversão… ao Pai voltemos, JUNTOS ANDEMOS, eis o tempo de conversão!…"

 A hora é agora, volta pra casa. Aliás,rezamos no Salmo 127, 1 “Se o Senhor não edificar a sua casa, em vão trabalharão seus construtores”, quer dizer, você é importante na obra do reino de Deus! Volta pra igreja e pro convívio com Deus. Ele é mãe (Is 49, 15) e te espera para te acolher e te acompanhar, basta querer e vir buscá-lo, aliás, Ele já deu o primeiro passo.

Quanto à Campanha da Fraternidade, tenho certeza que ainda restaram algumas dúvidas… Calma gente boa, temos a Quaresma inteira para meditar e interiorizar tudo isso, e mais, para colocar em prática aquilo que Deus através da igreja nos pede: garantir o direito e a justiça aos que sofrem.

 Oração, esmola e jejum. Terra, teto e trabalho. Amor, acolhida e fé.

Bem, este é o primeiro de um conjunto de quatro textos de nossa coluna, um por semana, que neste tempo quaresmal apresentaremos a você, que tem boa vontade no coração.

Medite comigo, a quem tiver dúvidas ou queira partilhar algo a partir deste texto, deixo aqui meu contato.

(Email: douglasxaviercapuchinhos19@gmail.com IG: frei_douglasx)

 

Paz e bem Hidrolândia!

Santa Quaresma pra gente.