Uma molécula experimental da Boehringer Ingelheim ganhou destaque no encontro anual da Associação Americana de Diabetes (ADA), em Nova Orleans. Não foi só por ajudar na perda de peso — isso já seria esperado nesse tipo de estudo — mas por um ponto específico que chamou atenção até de pesquisadores mais experientes: a redução da gordura acumulada no fígado.

Segundo a MedicalXpress, a survodutida entrou de vez na conversa sobre a nova geração de medicamentos para obesidade. E, aos poucos, vai mudando o tipo de pergunta feita nesses congressos.

Caneta emagrecedora ao lado de uma fita métrica emboladana mão de uma pessoa
Estudos clínicos apontam queda de até 60% na gordura hepática com uso de survodutida em adultos obesos. Imagem: Edugrafo/Shutterstock – Imagem: Edugrafo/Shutterstock

O debate sobre obesidade mudou de lugar

Clayton Macedo, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), resumiu bem o clima. Segundo ele, em declaração ao G1, não faz mais sentido olhar apenas para “quantos quilos foram perdidos”.

Agora a discussão é outra. O que mais esses remédios conseguem melhorar no corpo? E, principalmente, o que acontece com órgãos-alvo como o fígado?

Essa virada de chave apareceu em vários trabalhos apresentados no evento.

Médico mostrando fígado com gordura, doença hepática em fundo branco.
Survodutida reduz gordura no fígado em até 60% e chama atenção em estudos clínicos Imagem: SoftSheep/Shutterstock

O que os estudos mostraram na prática

Um dos estudos mais comentados foi de fase 3 — a etapa final antes de possível aprovação — publicado na revista Nature Medicine. Foram 216 adultos com obesidade e gordura no fígado.

O resultado chama atenção: redução de quase 60% na gordura hepática. Não é um detalhe pequeno.

Em 84% dos participantes, a queda foi de pelo menos 30%, contra 24% no placebo. E cerca de seis em cada dez chegaram a níveis considerados normais. Marcadores de inflamação também caíram, incluindo a enzima ALT.

Em outro estudo, publicado no New England Journal of Medicine, 725 adultos com obesidade sem diabetes foram acompanhados. Parte deles passou por ressonância magnética — e aqui vale um parêntese: é um dos métodos mais precisos para avaliar gordura no corpo.

Nesse grupo, a gordura visceral caiu cerca de 34% (contra 12% no placebo). A gordura no fígado caiu 63%. E um dado importante: a massa magra foi preservada.

Ou seja, o peso perdido veio principalmente de gordura.

No total, a redução chegou a 16,6% em 76 semanas entre quem concluiu o tratamento. Junto disso, houve melhora de pressão arterial, triglicerídeos e medida da cintura.

Um detalhe que muda o jogo

A maioria dos medicamentos atuais para obesidade atua no GLP-1, ligado à saciedade. A survodutida faz isso também, mas adiciona outra peça ao sistema: o glucagon.

Esse hormônio atua diretamente no fígado e no metabolismo energético.

Fernando Valente, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), explica que isso pode ajudar a entender parte dos resultados.

Não é só perda de peso. Há um efeito metabólico adicional acontecendo ali.

O fígado tem muitos receptores para glucagon. Ele estimula o uso da gordura como energia e aumenta o gasto energético.

Fernando Valente, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), ao G1.

Estudos mostram melhora em indicadores de saúde com nova droga para obesidade. Imagem: Shidlovski/iStock

Gordura no fígado deixa de ser coadjuvante

A gordura no fígado deixou de ser tratada como um achado secundário e passou a ser vista como um dos principais sinais de risco metabólico. A condição, chamada de gordura ectópica, está associada ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, diabetes e inflamação crônica. Em casos mais avançados, pode evoluir para fibrose, cirrose e até câncer hepático. O quadro é hoje classificado como doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), com possível progressão para esteato-hepatite metabólica (MASH).

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Apesar dos resultados positivos observados em estudos recentes com novas moléculas, especialistas destacam que não é possível fazer comparações diretas entre os medicamentos, já que os trabalhos utilizam métodos e populações diferentes.

Os efeitos adversos relatados seguem o padrão da classe, com náusea e vômito leves a moderados, principalmente no início do tratamento, sem registros de mortes.

No congresso, pesquisadores apontaram ainda uma mudança de abordagem na medicina metabólica. A obesidade passou a ocupar o centro das discussões, e os tratamentos vêm sendo desenvolvidos com foco mais amplo, atuando em diferentes sistemas do organismo — com destaque crescente para o papel do fígado nesse cenário.

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Fonte: Olhar Digital