SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A vida na selva é uma luta contra a selva, atestou a colombiana Pilar Quintana, que aperfeiçoou um estilo de romance protagonizado por mulheres enfiadas na natureza mais profunda, estilo que chega ao ápice no novo “Noite Negra”.
O livro traduzido por Elisa Menezes para a Companhia das Letras foi o principal assunto da mesa que encerrou a programação do Palco da Praça da Feira do Livro neste domingo (31), em São Paulo, com reflexões de alto nível sobre feminicídio, solidão e a história da literatura latino-americana.
O romance, disse ela, bebe da experiência real de quando a escritora de Cali viveu por nove anos na selva inóspita da Colômbia. “Sinto que concentrei os medos que vivi em um espaço narrativo de quatro dias. Falamos muito da solidão nas cidades, de como o habitante das cidades está sozinho, mas não é uma solidão efetiva. Eu tinha minha cachorra e minha gata, mas ninguém com quem constatar a realidade.”
Quintana ressalta, contudo, não ser um romance autobiográfico. O que há de mais confessional ali é o que “as pessoas menos pensam”: as cenas cotidianas de Rosa realizando tarefas comezinhas e repetitivas, como varrer, comer e lavar, para garantir a própria sobrevivência.
O livro se inscreve numa tradição latino-americana de personagens desbravando a selva -que remonta a obras seminais da literatura colombiana, como “A Voragem”-, mas se destaca por seu protagonismo feminino. E aí se ressaltam, disse ela, os “ofícios que sempre foram designados às mulheres”.
“Eu lia aqueles romances masculinos e pensava, esses homens devem feder muito, porque nunca lavam a roupa”, disse ao mediador Joca Reiners Terron, que levantou a lembrança de como o livro se inscreve em códigos clássicos da literatura gótica, cheia de medos insondáveis e ambientes sombrios.
A selva, afirmou ele, é o equivalente no nosso continente aos castelos fantasmagóricos onde tinham lugar as narrativas góticas europeias, ao que Quintana assentiu.
“No mundo ocidental, temos essa ideia de uma natureza bondosa, valorizamos os remédios naturais, mas o veneno de cobra também é natural. A natureza é boa e má.”
A colombiana lembrou de um amigo que foi visitá-la e queria entrar na floresta descalço, para fazer contato com a “pachamama”, a mãe terra. Terminou cheio de infecções e com febre. “A selva, como cenário, desafia nossa ideia romântica, faz com que confrontemos os animais que somos.”
E são tensões potencializadas pela experiência feminina, ao estilo de autoras latinas destacadas como Mariana Enríquez e Samanta Schweblin.
“Aprendi que o lugar mais perigoso para as mulheres não é um parque à meia-noite, mas sua casa”, apontou, lembrando estatísticas que apontam parceiros e ex-parceiros como os principais responsáveis por feminicídios. “Entendi na época do MeToo que ser mulher é se sentir em permanente ameaça.”
Uma das mais fortes metáforas de “Noite Negra” é o fato de a casa semi-pronta da protagonista ainda não ter portas ou janelas por falta de material -um plástico preto é tudo que impede animais e pessoas de acessar seu espaço mais íntimo.
“É como os corpos das mulheres, em que os homens sentem que podem entrar sem pedir permissão”, comparou Quintana, em um dos momentos mais aplaudidos. “Enquanto isso, o corpo dos homens está lá protegido, com suas portas e janelas.”
Ao final da conversa, direcionada a um público vasto que lotava a praça no começo da noite fria, Terron instou a autora a comentar o primeiro turno da eleição colombiana, que aconteceu hoje. Ela diz que se divide entre torcer por um segundo turno e querer que essa eleição acabe logo.
A chegada à Presidência de Gustavo Petro há quatro anos, lembrou ela, foi a primeira eleição de um esquerdista da história da Colômbia, e Quintana diz ter ficado muito decepcionada.
“Era uma oportunidade de mostrar que poderíamos ter um governo de esquerda, ‘olha como não foi tão mau’. E a desperdiçamos. Foi um mau governo. Vou votar no segundo turno na esquerda, mas sem alegria.”
Fonte: Folhapress por WALTER PORTO








