PARA QUE TODOS SEJAM UM

Por Frei Douglas Xavier Carvalho e Pastores de Hidrolândia

O mundo não sofre apenas de guerras geográficas; ele padece de uma fragmentação da esperança. E o escândalo mais doloroso, aquele que emudece a nossa pregação, é a visão de um Cristo repartido por nossas divisões. No Cenáculo, às vésperas da Cruz, Jesus não formulou uma sugestão administrativa; Ele elevou uma súplica visceral ao Pai: “Que todos sejam um… para que o mundo creia” (Jo 17,21). Note bem: a credibilidade do Evangelho está intrinsecamente ligada à nossa unidade. Se não somos um, o mundo tem o direito de duvidar que o Pai enviou o Filho.

A unidade não é uniformidade; é harmonia. É a consciência de que, embora naveguemos em barcos distintos, o Mar é o mesmo e o Capitão é um só. Por isso, este texto não nasce apenas da minha, caneta e coração, mas do desejo de comunhão.

Em uma iniciativa conscientemente histórica, interrompo a minha voz e convido o Pastor Lucas Odarci (igreja videira) a partilhar sua visão sobre este Reino que nos une:

“A paz, Frei Douglas, sou agradecido pela sua iniciativa. Penso que o chamado de Cristo é, essencialmente, um convite para sairmos do nosso próprio isolamento e vivermos a comunhão verdadeira por meio do Seu amor. Esse chamado não nos conecta apenas a Deus, mas nos insere no Seu Corpo, a Igreja, onde a união deixa de ser um mero conceito social e se torna um mandamento vivo. Como bem expressa o apóstolo Paulo em Efésios 4:1-3, somos exortados a andar de modo digno da vocação a que fomos chamados, suportando-nos uns aos outros em amor e nos esforçando para preservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Responder a Jesus significa, portanto, abraçar o irmão, reconhecendo que a cruz reconciliou a humanidade e nos transformou em membros de uma mesma família espiritual.

Essa vivência comunitária encontra sua expressão máxima na prática do amor sacrificial que o próprio Cristo demonstrou. Em João 13:34-35, Ele nos dá o novo mandamento: “Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós”. O amor é a maior evidência pública de uma autêntica conversão e o sinal claro de que somos Seus filhos. Quando a igreja vive essa união fundamentada na Palavra , acolhendo os necessitados, perdoando, ajudando uns aos outros, refletimos a Cristo para o mundo, mostrando que o Seu chamado transforma corações de pedra em laços eternos de amor.”

Prosseguindo neste itinerário meditativo, compreendemos que o diálogo não é uma estratégia de marketing religioso, mas um imperativo da fé. Como nos recorda o Concílio Vaticano II no decreto Unitatis Redintegratio (unitatis redintegratio) , os cristãos de outras confissões não são estranhos, mas “irmãos no Senhor”. São João Paulo II, em Ut Unum Sint (Ut Unum Sint) , afirmou que este caminho é irreversível. E agora, em 2025, ao celebrarmos os 1700 anos do Concílio de Niceia, a Carta Apostólica In Unitate Fidei (In Unitate Fidei) de Leão XIV nos convoca a redescobrir o que nos une: o mesmo Credo, o mesmo Cristo, o mesmo batismo.

A unidade, contudo, precisa de braços. Por isso, convido o Pastor Carlos Eduardo Godoi a somar sua voz a este coro de esperança:

Te agradecemos frei por essa iniciativa espiritual de unidade. Qual a nossa missão como igrejas cristãs hoje?! Vejo que continua a mesma que Cristo nos ordenou, de propagar o reino dos céus. Vejo que hoje as igrejas têm papel fundamental em suas ações, tais como, reuniões em lares, nas ruas, em praças, também com a ações sociais e etc… Vejo que cada igreja tem suas estratégias pra alcançar as pessoas e lhes apresentar a Cristo. Pois Cristo é o nosso bom pastor, e nos deixou bem orientados, nos dizendo “Ide pregai o evangelho a toda criatura”. Há uma grande importância das comunidades cristãs em manterem e cumprirem esse “ide”, poi na mesma fé, e com o mesmo intuito e com o mesmo espírito que alcançaremos o grande objetivo que é mostrar o reino dos céus. Vejo que se deixamos de lado as placas de igrejas e lembrar-nos que temos um único Deus, faremos e daremos o nosso melhor que e salvar vidas e mostra-lhes quem é Deus.”

Agradeço aos irmãos em Cristo por terem aceitado compor essa reflexão comigo. É um bonito passo que testemunha ser nosso amor ao Cristo Senhor e Cabeça, maior que nossas diferenças.

Para que esta Semana de Oração não se encerre no último ponto final deste artigo, proponho enfim 12 Pistas para a Unidade no Cotidiano, inspiradas no Vademecum Ecumênico (Vademecum Ecumênico)

  1. Ecumenismo Espiritual: Reze diariamente pela unidade, reconhecendo que ela é um dom do Espírito, não uma conquista política.
  2. O Diálogo da Vida: Cultive amizades entre denominações; o preconceito morre onde a convivência nasce.
  3. Ação Social Conjunta: Unamos forças para alimentar o faminto de Hidrolândia. A fome não pergunta a religião de quem estende a mão.
  4. Purificação da Memória: Peçamos perdão mútuo pelas ofensas históricas e palavras ríspidas do passado.
  5. Estudo em Comum: Reúnam-se para ler as Escrituras; a Palavra é o solo onde todos pisamos.
  6. Hospitalidade Espiritual: Acolha o fiel de outra igreja com a cortesia que dispensaria ao próprio Cristo.
  7. Defesa da Vida e da Família: Lutemos juntos pelos valores éticos cristãos que protegem a dignidade humana.
  8. Reconhecimento do Batismo: Valorize o sinal sagrado que nos torna, tecnicamente e misticamente, membros do mesmo corpo.
  9. Evitar o Proselitismo: A missão não é “roubar ovelhas”, mas anunciar o Pastor Jesus às almas perdidas.
  10. Solidariedade na Perseguição: Lembre-se que o sangue dos mártires cristãos hoje, em todo o mundo, tem a mesma cor, independente da denominação.
  11. Celebração da Cultura Local: Que nossas festas, como o Fogaréu ou Santo Antônio, sejam espaços de respeito e encontro cultural.
  12. O Testemunho da Alegria: Que o mundo veja cristãos que, apesar das diferenças teológicas, sabem sorrir e trabalhar juntos.

“Que todos sejam Um”

Concluo com uma prece:

Senhor, tende piedade de nossa divisão. O peso da nossa desunião atrasa o Teu Reino. Que Hidrolândia não veja em nós competidores de um mercado religioso, mas irmãos de uma mesma lida.

O que transformará esta cidade não será a força das nossas instituições isoladas, mas a beleza da nossa unidade visível. Quando as mãos se dão, o mundo se ajoelha. Que a misericórdia divina lave nossas mágoas e que, sob a luz de Niceia e o sopro do Espírito, possamos um dia dizer: Vejam como eles se amam. Pois onde o amor vence a barreira, ali o céu toca a terra, onde reina o amor, Deus ali está! Que assim seja, Amém, Amém, Aleluia!

 Paz e bem.