Nos últimos dias, uma nova leva de vídeos, fotos e depoimentos sobre objetos voadores não identificados voltou a circular depois da divulgação de arquivos pelo governo dos Estados Unidos. E como quase sempre acontece nesses casos, as imagens são desfocadas, distantes, granuladas e inconclusivas. Já vimos, em outras situações, satélites, aviões, drones, balões, aves e até insetos gerando dúvidas até serem desvendados. Mas sempre que surge algo que não tem uma explicação clara, muita gente alimenta, mesmo que por alguns instantes, a esperança que seja a confirmação de que estamos sendo visitados por aliens.
[ Imagem de “OVNI” registrado por Comando Indo-Pacífico próximo ao Japão – Fonte: Departamento de Guerra dos Estados Unidos ]
Só que não podemos confundir a falta de explicação científica com uma explicação extraterrestre para o fenômeno. Muitos destes casos analisados são inconclusivos simplesmente porque não há informações suficientes para chegar a um resultado.
Na falta de evidências mais fortes, vamos tentar entender porque a grande maioria dos cientistas considera improvável a hipótese de que a Terra esteja no roteiro turístico dos viajantes cósmicos. Será que faz sentido imaginar civilizações alienígenas visitando a Terra?
Uma coisa é praticamente consenso entre os cientistas: a vida no Universo provavelmente é algo extremamente comum. Outra, completamente diferente, é imaginar civilizações avançadas cruzando enormes distâncias no espaço para nos observar escondidas atrás de nuvens ou se exibindo, em coreografias exóticas, para as lentes de uma Tekpix.
A nossa galáxia sozinha possui centenas de bilhões de estrelas. E hoje sabemos que planetas são comuns. Muitos deles estão em regiões habitáveis, onde temperaturas permitem a existência de água líquida. Além disso, moléculas orgânicas complexas aparecem naturalmente no espaço interestelar, em meteoritos e até em nuvens de gás. A química necessária para a vida parece surgir com relativa facilidade em todo o Universo.
[ Apenas em nossa galaxia são cerca de 400 bilhões de estrelas, muitas delas com planetas em zona habitável e que reúnem as mesmas condições para o surgimento da vida que a Terra teve no passado – Imagem gerada por IA (ChatGPT) ]
O problema começa quando saímos da vida simples e chegamos à vida complexa. Na Terra, os primeiros organismos surgiram relativamente cedo, assim que o planeta resfriou cerca de 3,5 bilhões de anos atrás. Mas durante grande parte da história da Terra, a vida permaneceu microscópica. Organismos multicelulares complexos só apareceram há algumas centenas de milhões de anos. E quando falamos de inteligência e tecnologia, essas só surgiram na última linha da última página do nosso diário cósmico. Isso sugere que talvez bactérias alienígenas sejam comuns, mas civilizações capazes de construir radiotelescópios, foguetes ou sondas interestelares possam ser extremamente raras.
Reflexões como essa deram origem ao Paradoxo de Fermi, que surgiu de uma pergunta simples feita pelo físico Enrico Fermi nos anos 1950: “Se o Universo deveria estar cheio de civilizações, onde está todo mundo?” Afinal, a galáxia é antiga. Muito mais antiga que a humanidade. Uma civilização com alguns milhões de anos de vantagem tecnológica poderia, em princípio, explorar enormes regiões da Via Láctea. E ainda assim, até hoje, não temos nenhuma evidência inequívoca de contato extraterrestre.
[ Enrico Fermi, físico ítalo-americano que, nos anos 1950 formulou o paradoxo que intriga a humanidade desde então: onde estão todos os extraterrestres? – Créditos: Departamento de Energia dos EUA ]
E aqui aparece um detalhe frequentemente ignorado nas discussões sobre OVNIs: viajar entre estrelas é absurdamente complicado.
As distâncias no espaço interestelar são tão grandes que desafiam nossa compreensão. A estrela mais próxima do Sol, Proxima Centauri, está a cerca de 4,2 anos-luz de distância. Astronomicamente isso é logo alí, mas equivale a 40 trilhões de quilômetros, o que é 100 milhões de vezes mais distante do que a viagem mais profunda no espaço feita por um ser humano. As espaçonaves mais rápidas já construídas pela humanidade levariam dezenas de milhares de anos para percorrer essa distância.
Mesmo que civilizações avançadas tivessem simplesmente “superado” essas limitações com tecnologias alienígenas, isso não eliminaria os problemas físicos fundamentais. Energia, radiação, impactos com partículas interestelares, suprimentos e suporte à vida para uma viagem de décadas ou séculos… tudo isso transforma as viagens interestelares em um desafio colossal. Não impossível pela física conhecida, mas tremendamente caro e complexo.
E existe uma questão ainda mais curiosa: o que é que um alienígena vem fazer na Terra?
Se uma civilização possui tecnologia para cruzar anos-luz, ela provavelmente também teria instrumentos capazes de estudar nosso planeta à distância. Nós mesmos já começamos a analisar atmosferas de exoplanetas. Uma civilização muito mais avançada poderia detectar oxigênio, metano, poluição industrial e sinais de atividade biológica sem precisar zuar nossas plantações ou abduzir nossas vacas.
[ Agroglifos, figuras desenhadas em plantações que supostamente seriam obras de alienígenas – Imagem: wikimedia.org ]
Na verdade, se alguém estivesse nos observando, o sinal mais claro da existência da humanidade seriam nossas transmissões de rádio e TV. O problema é que essas transmissões só começaram há pouco mais de 100 anos. Isso significa que qualquer civilização a mais de 100 anos-luz de distância provavelmente ainda nem sabe que existimos.
Imagine uma civilização detectando sinais tecnológicos vindos da Terra hoje. Eles decidem enviar uma missão imediatamente. Mesmo viajando a velocidades absurdamente altas talvez essa nave só chegaria aqui séculos ou milênios depois.
Por isso, muitos cientistas consideram improvável que os fenômenos observados atualmente representem visitas alienígenas. “Objeto voador não identificado” significa apenas que algo não foi identificado. Não significa automaticamente nave extraterrestre.
[ Impressão artística da estrutura da galáxia. Neste gráfico, é impossível representar o alcance atual das nossas ondas de rádio, que não ocuparia mais do que alguns píxels da imagem. Créditos: NASA/JPL-Caltech/ESO/R. Hurt ]
Isso não quer dizer que a busca por vida fora da Terra seja irrelevante. Muito pelo contrário. Hoje existem projetos científicos extremamente sérios procurando bioassinaturas em exoplanetas, sinais de vida em Marte ou outras luas do nosso Sistema Solar e monitorando o céu em busca de fontes artificiais de rádio. O próprio projeto SETI dedica décadas à procura por transmissões tecnológicas vindas do espaço. Até agora, o silêncio continua, mas a ausência de provas não é uma prova de ausência.
[ Very Large Array (VLA), um conjunto de 27 antenas no Novo México que integram o projeto SETI que busca por sinais de radio que possam revelar a existência de outras civilizações tecnológicas – Créditos: Alex Savello/NRAO ]
Talvez civilizações inteligentes sejam raras. Talvez sejam abundantes, mas muito distantes umas das outras. Talvez a janela tecnológica seja curta e civilizações desapareçam rapidamente. Talvez muitas delas nunca desenvolvam interesse científico pelo cosmos. Afinal, não temos como saber se eles teriam uma biologia semelhante à nossa e muito menos se teriam os mesmos interesses.
É claro que podemos imaginar que algumas civilizações podem ser tão avançadas que desenvolveram tecnologias que superam os limites da física conhecida e podem viajar livremente pelo Universo. Mas isso fica no campo da especulação e não da ciência, que trabalha com fatos concretos e com modelos físicos e matemáticos conhecidos.
Enquanto não tivermos uma prova definitiva seguiremos buscando por eles lá fora, na imensidão do Cosmos, procurando entender se a vida consciente é um acidente improvável ou uma consequência natural do Universo. Cada novo telescópio, cada sonda espacial e cada planeta descoberto nos aproxima um pouco mais dessa resposta. Mesmo que ela demore séculos, essa é uma resposta que vale a pena esperar!
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Fonte: Olhar Digital








