O longa 2DIE4: 24 Horas no Limite chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (30) com uma proposta incomum dentro do cinema nacional: transportar o espectador para dentro de uma das provas mais exigentes do automobilismo mundial, as 24 Horas de Le Mans. A produção acompanha o piloto Felipe Nasr ao longo da corrida, em uma narrativa construída a partir de sua própria perspectiva e das interações com a equipe durante a prova.

Dirigido e produzido pelos irmãos André Abdala e Salomão Abdala, conhecidos como Abdala Brothers, o projeto levou cerca de dois anos para ser desenvolvido e combina uso de equipamentos cinematográficos de alto nível e acesso direto aos bastidores de uma equipe da Porsche. A proposta, segundo os diretores, foi tratar uma corrida real como se fosse um set de filmagem, sem interferir nos acontecimentos.

Além do acesso, o filme também aposta em inovação técnica. A produção utilizou câmeras 8K customizadas em parceria com a Panavision. A técnica de filmagem, adaptada ao padrão IMAX, visou manter uma estética mais próxima do cinema tradicional.

Outro destaque está no desenho de som, desenvolvido ao longo de mais de um ano e finalizado em Dolby Atmos. A proposta foi recriar não apenas o ambiente da corrida, mas também a percepção auditiva do piloto dentro do carro, incluindo comunicações de rádio e variações de motor.

Na entrevista abaixo ao Olhar Digital, os diretores detalham os bastidores do projeto, as decisões criativas e os desafios de transformar um evento real em uma experiência cinematográfica.

Do início com GoPro ao primeiro longa

Olhar Digital: Como foi o caminho de vocês desde o início, quando ganharam uma GoPro em um sorteio, até chegar ao primeiro filme brasileiro em IMAX?

André Abdala:
É muito doido… porque eu acho que durante a nossa carreira tiveram muitas GoPros que Deus nos deu e foram possibilitando a gente avançar a cada degrau, na verdade, para o próximo passo. Eu acho que cada passo foi um pulo de amadurecimento, mas para a gente sempre foi uma coisa muito pessoal, sabe?

Nós começamos a fazer vídeo porque a gente era apaixonado por isso. A gente queria que o nosso vídeo de GoPro saísse no canal oficial da GoPro e fosse o melhor vídeo de GoPro possível. E quando a gente comprou uma câmera própria, a lógica era a mesma.

E agora fazer o filme, o primeiro filme, tem que ser IMAX. Então sempre teve uma motivação por trás nossa que é pessoal, num nível de que se não ficar perfeito, não está bom o suficiente.

É muito louco isso, porque por mais que seja uma evolução muito grande das coisas que aconteceram, foram oportunidades que apareceram e que a gente buscou muito para poder estar lá.

Olhar Digital: Vocês trabalharam com a Panavision para desenvolver o equipamento e usaram lentes muito raras. O que essas escolhas trouxeram para a imagem do filme que uma câmera convencional não traria?

Salomão Abdala:

Quando a gente teve essa ideia e decidiu fazer o nosso primeiro filme, a gente sabia que em algum momento ia ter que fazer esse primeiro filme. E a gente queria que fosse um filme de corrida, porque a gente sabe que tem muitas habilidades no mundo do automobilismo e sabemos mostrar isso de um jeito diferente que talvez não tinha sido mostrado antes.

Mas fazer o primeiro filme de corrida é quase impossível, porque os filmes de corrida são notórios por serem os mais caros da história do cinema. Então, como que você consegue, como diretor, fazer o seu primeiro filme sem ter esse tipo de estrutura, sem vir desse meio?

E esse conceito veio quando meu irmão falou: e se a gente for numa corrida de verdade, filmar um piloto de verdade, com consequências de verdade, e tratar isso como o nosso set de cinema?

Olha para aquelas 300 mil pessoas que estão na arquibancada e tratá-las como se fossem figurantes. Porque, se você estivesse num set, você ia pedir para elas se vestirem como franceses e fingirem que estão assistindo a uma corrida. Só que ali elas já são francesas, estão na França e foram assistir a corrida.

Então é só captar essa realidade da forma mais cinematográfica possível.

Mas tinha uma coisa que a gente queria: o equipamento, a parte técnica que os grandes filmes de Hollywood têm. Então, mesmo sem ter esse grande orçamento, se a gente usasse esse tipo de equipamento, isso ia trazer uma qualidade que está nos filmes que a gente gosta.

A Panavision desenvolveu coisas para a gente, foi de protótipo mesmo. Isso foi muito especial, porque era algo que a gente queria desde o começo.

Eu falei para eles: ‘eu quero muito a lente que o Christopher Nolan usou em Oppenheimer, que traz aquela separação entre o personagem e o resto do mundo’.

Arquibancada lotada acompanha carros na pista durante as 24 Horas de Le Mans
Público real vira ‘figurante’ no filme que acompanha a corrida de Le Mans. Imagem: reprodução – Imagem: Divulgação

André Abdala:

É porque é uma lente antiga e muito especial, que traz esse look na imagem.

Quando a gente fala de IMAX, existe esse selo de qualidade, de que é a forma mais imersiva de assistir a um filme. Mas mesmo assistindo o nosso filme em um cinema tradicional, você vai perceber essa diferença, porque essas lentes fazem parecer que você entrou em uma realidade nova.

As imagens trazem uma separação entre o protagonista, o Felipe, e o fundo, que parece que você está em um ambiente que não é o que você geralmente assiste em outros filmes.

Tem um look muito diferente. Essas lentes são isso.

Olhar Digital: Vocês desenvolveram uma técnica inédita de filmagem para esse formato. Explica a ideia para os nossos leitores e o que muda para quem está assistindo.

Salomão Abdala:

Uma das coisas que a gente queria era trazer novas experiências para a audiência. Um dos jeitos disso foi colocar a audiência dentro de um lugar onde ela nunca esteve, que é dentro do relacionamento de um piloto com a equipe. Um relacionamento real, que não é roteirizado. Você está vendo ali praticamente um casamento dentro de quatro paredes, coisas que normalmente você não veria.

Na parte técnica, a gente também queria trazer inovação. O IMAX tem uma tela mais alta do que larga, o que vai contra a evolução do cinema, que sempre foi de deixar a imagem mais horizontal. Vieram várias tecnologias ao longo do tempo para deixar a imagem mais larga, como lentes anamórficas, CinemaScope, VistaVision.

O IMAX vem no sentido contrário. Ele é mais alto. E, por isso, normalmente se usa lente esférica, que é uma lente mais ‘normal’, mais parecida com o que você vê até em um celular.

Só que, para a gente, o cinema mais clássico, os grandes filmes da história, sempre foram feitos com lentes anamórficas, que criam uma separação diferente entre o que está em foco e o que não está.

Close nos olhos de um piloto com reflexos de luz, em cena do filme
Cena destaca imersão e linguagem visual do filme 2DIE4: 24 Horas no Limite – Imagem: Divulgação

André Abdala:
E são essas lentes que geram aquelas barras pretas que a gente está acostumado a ver nos filmes.

Salomão Abdala:

Exatamente. E isso normalmente não funciona no IMAX. Então, em muitos filmes, você vê cenas em IMAX com lente esférica e outras cenas com lente anamórfica com barras pretas.

Ou então, em filmes mais recentes, eles usam só lente esférica para manter a consistência. Mas isso sempre incomodou a gente, porque acreditamos que a lente anamórfica é a mais cinematográfica que existe.

Durante o desenvolvimento do filme, a gente teve algumas ideias, fez cálculos, conversou com a Panavision, e eles desenvolveram protótipos para a gente.

A gente conseguiu criar uma técnica onde usamos lente anamórfica no formato IMAX, que é esse formato mais alto. É o primeiro filme com lançamento em IMAX a fazer isso.

Isso é um ponto muito grande de orgulho para a gente como brasileiros, porque além de ser o primeiro filme brasileiro em IMAX, também traz uma inovação que está sendo feita aqui antes do resto do mundo.

Essa técnica foi aplicada na sequência final do filme, que foi quando ela ficou pronta. E é uma sequência com uma imagem muito diferente, porque você está vendo anamórfico dentro de uma tela alta de IMAX.

Olhar Digital: Como vocês conseguiram esse nível de acesso ao Felipe Nasr e também à equipe da Porsche dentro de uma corrida?

André Abdala:

Isso foi uma das coisas mais difíceis e a primeira grande barreira para a gente tentar fazer o filme. Porque, a partir do momento que o Felipe veio com a gente… existia um contexto de que nós já queríamos fazer o nosso primeiro filme e tínhamos interesse em contar histórias de pessoas com obsessão por aquilo que fazem.

Numa conversa de bar com o Felipe, depois de um projeto que a gente fez com ele para a Porsche, ele virou e falou: ‘meu sonho é vencer Le Mans, mesmo que eu morra tentando’.

Foi exatamente nesse momento que a gente entendeu: está aí o nosso protagonista. É uma pessoa real, com um objetivo claro, com um motivo de existência muito forte naquele contexto.

E esse é o tipo de história que a gente queria contar. Não só sobre corrida, mas sobre alguém que tem uma obsessão pela paixão que encontrou.

A partir disso, foi usar tudo que a gente tinha: contatos no automobilismo, relação com a Porsche, pedir ajuda para conseguir acesso com a organização da corrida, liberar direitos para filmar, conseguir autorização para estar lá dentro.

E a parte mais sensível era com a Porsche, porque a gente precisava de liberação total dentro da garagem da equipe. A gente estava financiando o próprio filme, filmando uma história real sem saber o resultado final. Então, sem esse acesso completo, não fazia sentido.

E foi muito louco porque a gente conseguiu. Então você vai ver no filme um nível de intimidade dentro de um box de corrida que você nunca viu antes.

Salomão Abdala:

Porque, para você ouvir e saber essas coisas que estão sendo conversadas, normalmente você teria que ser um piloto ou um engenheiro da equipe.

Felipe Nasr em uniforme da Porsche Penske Motorsport nos bastidores da corrida
O piloto brasileiro Felipe Nasr é o protagonista do filme sobre as 24 Horas de Le Mans – Imagem: Divulgação

Olhar Digital: O som é um elemento central em um filme de corrida. Como vocês trabalharam isso para traduzir a sensação de estar dentro da prova?

André Abdala:

Muito legal essa pergunta, porque existia uma coisa que a gente sabia desde o começo. Pelo fato de estarmos financiando o nosso próprio filme, a gente não tinha dinheiro infinito. Então tinha duas coisas que a gente não podia errar: imagem e som.

A única coisa que a gente precisava captar ali era o diálogo do Felipe. Todo o resto foi um ano e meio de trabalho incansável — e ainda continua — na mixagem e no som do filme.

Eu tenho muito orgulho de dizer que praticamente toda a pós-produção, tirando o color grading que foi feito pela Light Iron, foi 100% feita por brasileiros. Eu sou o editor do filme e também trabalhei no sound design.

A gente passou um ano e meio trabalhando nisso para fazer com que cada barulho de carro fosse perfeito. Se é um carro turbo, se é um V8, se é aspirado, se é uma Ferrari passando — tudo tem um som específico.

O filme inteiro foi masterizado em Dolby Atmos. Então todos os sons são tridimensionais. Você sente o som passando, vindo de cima, de trás, em volta de você.

Salomão Abdala:

Mas o mais legal é o seguinte: se a proposta do filme é colocar a audiência dentro da cabeça de um piloto, então você tem que ouvir como um piloto ouve.

Então você vai ouvir coisas como a comunicação do engenheiro falando com o piloto exatamente como acontece, como se estivesse no fone de ouvido dele.

Esse som vem das caixas de trás. Isso é algo que não é comum no cinema, porque normalmente o diálogo vem da caixa central, na frente.

No nosso filme, essa comunicação vem de trás, como acontece na vida real. E isso aumenta muito a imersão.

 

Fonte: Olhar Digital