Baseando-se em um mecanismo ligado ao ferro, Raphaël Rodriguez e sua equipe do Instituto Curie desenvolveram uma nova molécula capaz de atingir as metástases, responsáveis por 70% das mortes relacionadas ao câncer.

Os resultados ainda precisam ser confirmados em humanos, por meio de ensaios clínicos, mas já despertam grande esperança.

Os tratamentos clássicos contra o câncer, como quimioterapia e radioterapia, têm como alvo principalmente as células tumorais que se multiplicam rapidamente. Porém, dentro de um tumor existem outras células malignas que se multiplicam pouco e, por isso, resistem a essas terapias, podendo provocar recidivas da doença.

Essas mesmas células também têm a capacidade de se espalhar pelo organismo, formando tumores secundários. Essas formações são chamadas de metástases e atualmente são responsáveis por 70% das mortes por câncer.

O ferro: aliado ou inimigo das células cancerígenas?

Na unidade Química e Biologia do Câncer do Instituto Curie (em parceria com Inserm e CNRS), a equipe de Raphaël Rodriguez estuda as bases moleculares da progressão dos tumores, especialmente o papel do ferro.

Os pesquisadores descobriram recentemente que o ferro participa de processos capazes de “reprogramar” certas células cancerígenas, tornando-as resistentes aos tratamentos convencionais e também capazes de gerar metástases.

Por outro lado, o ferro também participa de reações químicas que, se não forem controladas pelas próprias células, podem levar à morte dessas células. Esse processo é chamado de Ferroptose.

“É o mesmo elemento químico, o ferro, que permite às células sobreviver ao tratamento convencional e, ao mesmo tempo, as torna vulneráveis se não conseguirem controlá-lo”, resume Raphaël Rodriguez.

Essa descoberta lhe rendeu a medalha de prata do CNRS em 2024.

Uma nova pista para eliminar as células mais resistentes

A pesquisa também permitiu que a equipe desenvolvesse uma nova classe de moléculas, chamadas degradadores de fosfolipídios, capazes de provocar esse processo de ferroptose.

A estrutura dessas moléculas permite que elas:

– Ataquem as células cancerígenas,

– Atravessam a membrana dessas células,

– Se acumulem nos lisossomos compartimentos celulares onde o ferro se concentra 

E ali desencadeiem a ferroptose, levando à morte da célula.

Uma dessas moléculas, chamada fentomicina (Fento-1), foi testada em modelos animais de câncer de mama resistentes a tratamento e também em células obtidas de biópsias de tumores de pâncreas e sarcomas, dois tipos de câncer bastante agressivos.

Os resultados mostraram:

– alta mortalidade das células cancerígenas

– redução significativa no crescimento dos tumores

Esses efeitos geram grande esperança, mas ainda precisam ser confirmados em humanos por meio de estudos clínicos.

A pesquisa foi publicada na revista científica Nature em 7 de maio de 2025.

Lisossomo: estrutura celular responsável por degradar resíduos celulares, macromoléculas biológicas, partículas estranhas (como bactérias, vírus e parasitas) e organelas danificadas dentro da c