Frei Douglas Xavier Carvalho

É surpreendente, primeiramente, que a palavra “mãe” tenha uma fonética minimamente universal; quer dizer, é um som fácil de ser reproduzido por bebês. Em Mandarim: Ma; em Alemão: Mama; em Francês: Maman; no Espanhol/Italiano: Madre/Mamma; e em Inglês: Mom/Mother. Mas não acredito ser simplesmente a facilidade de gesticulação, estimulada pelos movimentos próprios da amamentação; há algo de mais em tudo isso, um tanto misterioso e belo, quanto poderíamos ser capazes de entrever à primeira vista.

A mãe é, para mim, o próprio fundamento da nossa relação com tudo o que é extra-humano e propriamente humano, e também Divino. Quando nascemos, não temos consciência de que ocupamos espaço, de que somos únicos, sequer de que podemos ser chamados por um nome e uma identidade; nada disso é primeiramente apresentado com clareza para nós. Mas, para além disso, temos a mãe.

Temos seus seios e seu afago que nos dão segurança e alimento e vida. A mãe não só alimenta e dá carinho, mas a mãe é quem nos revela, gradualmente, que somos alguém. Quando percebemos que aquele lugar de aconchego, segurança e alimentação, na verdade, é outra pessoa, é outro humano, é então que nos notamos, talvez inconscientemente, individuais. Aqui está a maior importância da mãe:

Ela é a alteridade. Ela é o outro. Ela é a possibilidade da diferença que nos permite alcançarmos nossa própria identidade.

Dizemos, comumente, que a filosofia nasce nos livros ou nos pórticos da Grécia. Mas a verdade é que toda filosofia profunda começa em casa. Antes de você ler Sócrates e seu convite ao “conhece-te a ti mesmo”, o olhar de sua mãe já era o espelho que te ensinava a se descobrir. Antes de você ouvir Aristóteles dissertar sobre a ética e o que é a virtude, alguém já te mostrava, na prática do cotidiano, o que era o bem e o justo.Sêneca escreveu cartas magníficas sobre o uso do tempo e sobre o que importa de verdade na vida. No entanto, muitas mães viveram essas cartas sem jamais as terem lido.

  Elas mostraram, mesmo cansadas, mesmo sem aplausos, mesmo sem reconhecimento, o que é dedicar a vida a algo maior do que si mesma.

  O conhecimento da vida e do mundo não nasce nas bibliotecas; mas nasce em cozinhas, em conversas de fim de tarde, em correções suaves e em lições silenciosas que duram a vida inteira. A mãe é, portanto, o nosso primeiro livro de filosofia, de vida e de fé. Ela é quem nos ensina a existir, ainda quando nos falta essa consciência.

Para alguns de nós, esse “livro vivo” teve suas páginas físicas encerradas cedo demais.

Eu tinha apenas 10 anos quando minha mãe partiu.

Naquela idade, a criança marajoara ainda está descobrindo os limites do mundo, e de repente, o fundamento da segurança se torna ausência. Contudo, é nessa ausência que a fé cristã opera sua transfiguração mais bela.

Se a mãe é a nossa primeira experiência de alteridade, a sua partida nos obriga a buscar essa segurança no “Outro” absoluto: em Deus. A maternidade não morre com a sepultura; ela se torna uma semente que germina na alma. Hoje, percebo que aquelas lições de “existir” que ela me deu em uma década foram suficientes para pavimentar o caminho de uma vida inteira de consagração.

Como batizado e frei, olho para a Virgem Maria e vejo o ápice desse mistério. Ela não deu apenas o “sim” à vida; ela deu a Jesus, e a nós o fundamento humano para que Ele pudesse revelar Sua Divindade. Maria é a Mãe que ensinou o Verbo a pronunciar Suas primeiras palavras humanas.

E, ao lado dela, temos a Santa Igreja, nossa Mãe. Se a mãe biológica nos apresenta ao mundo, a Igreja nos apresenta à Eternidade através do Batismo. Ambas nos ensinam que ninguém caminha sozinho.

  Ser filho é uma condição eterna!

Neste Dia das Mães, meu convite é para que olhemos para essas mulheres não apenas com o afeto da data, mas com a emoção de quem olha para a própria raiz. Quer ela esteja ao seu lado à mesa, ou guardada no relicário da saudade, ela continua sendo a força que te faz caminhar com os pés no chão e o coração já no Céu.

Mãe é o nome de Deus nos lábios de quem aprendeu a amar.

Paz e Bem!