BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – A possibilidade de o governo Lula (PT) colocar o pé no acelerador no pacote de bondades em ano eleitoral acendeu a luz vermelha para o risco de que as medidas atrapalhem a política de juros e de combate à inflação do Banco Central em meio às incertezas da guerra dos Estados Unidos contra o Irã.

Lula tomou medidas nas últimas semanas para desonerar o diesel, anunciou aporte de R$ 20 bilhões no Fundo Social para bancar programas de habitação, como o Minha Casa, Minha Vida e o Reforma Casa Brasil, e deve anunciar um pacote de combate ao endividamento das famílias e empresas nesta semana.

O programa pode injetar mais de R$ 100 bilhões na economia em ano eleitoral e com as previsões de inflação em alta. Estão previstos a liberação de recursos do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), o aporte em fundos garantidores de crédito para renegociação de dívida e novas linhas para motoristas de aplicativos, taxistas e caminhoneiros trocarem seus veículos, além de medidas para o setor de fertilizantes.

Economistas consultados pelo BC já elevaram as previsões de inflação e taxa Selic para o fim deste ano e para 2027 na edição mais recente do Boletim Focus, divulgado na última segunda-feira (20). Para a inflação medida pelo IPCA, os agentes calculam agora que encerrará 2026 em 4,80%, ante 4,71% na pesquisa do dia 13, e em 3,99% no final do ano que vem, ante 3,91% na semana anterior.

Integrantes da equipe econômica têm sido aconselhados a deixar claro aos agentes do mercado financeiro quais são os caminhos que o governo pensa seguir. Oficialmente, os ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento e Orçamento) negaram em entrevistas à Folha de S.Paulo que as medidas sejam de estímulo ao consumo para ativar a economia em ano eleitoral.

“Todo esse processo está sendo muito bem pensado para garantir um mix equilibrado entre política monetária e política fiscal. Não se trata de estímulo ao consumo. Trata-se do aumento do patrimônio das famílias. Do aumento de produtividade”, disse Moretti.

Segundo ele, essas medidas, quando bem calibradas, não atrapalham a política monetária. Questionado se o presidente do BC, Gabriel Galípolo, entenderia dessa forma, ele respondeu: “Não sei como o Galípolo vai ver, mas é importante que a gente possa explicar ao BC e aos agentes econômicos que não se trata de mero estímulo ao consumo”.

Apesar do compromisso dos dois ministros, a preocupação no radar de técnicos da área econômica do governo, ouvidos pela reportagem na condição de anonimato, é que uma queda de Lula nas pesquisas na disputa com Flávio Bolsonaro (PL) leve o presidente a incrementar o pacote de bondades, inclusive aumentando o acesso ao Bolsa Família ou o valor do benefício.

Essa estratégia foi usada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022.

Chamou atenção desses técnicos a fala do novo ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), de que o governo estudava oferecer subvenção à gasolina.

O governo não adotou a subvenção, que teria custo elevadíssimo para as contas públicas, mas anunciou na quinta-feira (23) o envio de projeto de lei para permitir o uso de receitas extras geradas pela renda maior com a alta do preço do barril de petróleo para reduzir a tributação que incide sobre os combustíveis para os consumidores. A medida gerou mau humor no mercado e integrantes do governo saíram a campo para explicar a decisão.

Os técnicos alertam que as taxas de juros no mercado futuro podem subir diante de medidas que podem jogar mais de R$ 100 bilhões na economia.

O Copom (Comitê de Política Monetária) do BC se reúne nesta semana para definir os rumos da taxa Selic. Até lá, a expectativa é que o pacote tenha sido anunciado pelo presidente Lula.

PREOCUPAÇÃO NO FMI

A reunião mais recente do FMI (Fundo Monetário Internacional), realizada neste mês, teve como tema central o impacto na economia global das medidas fiscais adotadas pelos países em reação ao choque de alta do preço do petróleo.

Os governos têm sido rápidos em acionar os gatilhos fiscais para amortecer os efeitos da guerra, mas a avaliação foi de que, com esses movimentos descoordenados, surgiu o risco de escassez de oferta —termo econômico usado para explicar quando a demanda por um produto ou serviço excede a quantidade disponível no mercado.

O debate nas reuniões foi sobre como organizar a economia em um cenário de subida do preço do petróleo em que o consumo não é reduzido por conta de medidas adotadas pelos países, mas porque a oferta está caindo. O recado do FMI é considerado grave por técnicos da área econômica.

“Boa parte dessas medidas realmente está de olho nas eleições. Vemos se repetir mais uma vez aquele ciclo que vimos em 2022, também com bastante ênfase em anunciar um monte de bondade às vésperas das eleições para tentar aumentar a probabilidade de reeleição”, avalia Bráulio Borges, colunista da Folha de S.Paulo, diretor da LCA Consultores e pesquisador do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia).

Borges ressalta que o governo amenizou a alta do preço do petróleo, lançando mão de uma posição mais favorável que o Brasil tem hoje ao ser exportador líquido da commodity. Segundo ele, essa posição permitirá arrecadação maior de tributos, melhora da balança comercial e valorização do câmbio.

Ele também ressalta que o FMI revisou para cima o PIB brasileiro, sendo um dos poucos países que passaram por revisão positiva das previsões de crescimento esperado para 2026.

Para o economista, o efeito colateral dessas medidas será o de justamente atrapalhar a vida do BC, sendo difícil quantificar quanto das medidas que o governo tem anunciado podem reduzir espaço para a queda da Selic.

“Não sabemos se as pessoas vão contratar mais crédito porque já estão bastante endividadas, mas claramente mostra uma política econômica que está à mercê das eleições, sem muita consistência, sem muita coordenação entre as várias políticas monetária, fiscal, parafiscal e creditícia”, diz. “Isso não é bom, porque acaba, na prática, gerando uma sobrecarga sobre a política monetária, que é o que, na prática, o Brasil tem observado já há bastante tempo”.

Para o doutor em economia e consultor Nilson Teixeira, não há dúvida de que as medidas estimularão o consumo. “Esse é o objetivo do governo. Essas medidas vão estimular investimentos, mas em linhas gerais, são voltadas ao aumento do consumo. Não há como fugir disso”, diz.

Teixeira ressalta que a adoção dessas bondades não é privilégio de governos de esquerda ou direita. “O de direita [governo Jair Bolsonaro] mais recente fez o mesmo, e há uma total ausência de planejamento”, disse, citando que o ciclo político é o mesmo: gastar mais no último ano para buscar a reeleição ou eleger o seu sucessor.

“Chega no final, ele vê que a taxa de aprovação não é alta o suficiente, e aí sai organizando um esforço para adotar medidas que tragam algum aumento da popularidade. E aumento da aprovação do governo num processo de curto prazo é só transferir recursos”, critica.

APOIO DOS BANCOS

Leandro Vilain, da ABBC (Associação Brasileira de Bancos), defende as medidas de renegociações de dívidas que farão parte do pacote. “É importante a gente lembrar que não vai ter dinheiro novo nas renegociações”, disse ele, admitindo que essa é apenas uma parte do pacote.

Ele cita que, no Brasil, o preço do petróleo tem um peso muito significativo nos índices de inflação. “Isso pode mudar efetivamente a curva de queda de taxa de juros. Aliás, vimos isso acontecendo com a curva de juros futuros”.

A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) diz em nota à Folha de S.Paulo rejeitar a ideia de que o pacote de crédito possa adicionar um fator de estresse no cenário de incertezas por conta da guerra no Irã e choque de preços de petróleo.

“Pela implementação dos programas em si e os valores colocados, numa dimensão de longo prazo e estrutural não há novos fatores de risco adicionados”, diz a nota. Para a Febraban, nos momentos de crise e piora externa, saem-se melhor os países com fundamentos sólidos e boa gestão da política econômica, em especial a fiscal.

“Nesse sentido, estes programas têm que ser avaliados em seu impacto (mesmo que seja no curto prazo) sobre a inflação e as expectativas dos agentes econômicos e a sua forma de financiamento, que não deve levar a uma piora do resultado fiscal e nem a um aumento da dívida pública”.

A entidade diz que não tem conhecimento da possibilidade de o pacote injetar R$ 100 bilhões e nem o período em que esse dinheiro entraria no sistema. “Números gerais mostram que são valores relativamente pequenos, vistos em comparação com o conjunto da economia. R$ 100 bilhões representa cerca de 1,5% do estoque atual e assim com pouco impacto no crédito geral”, diz.

Procurado, o Ministério da Fazenda diz que as medidas se encontram em estudo. “Mas, como o ministro Durigan tem reiterado, a medida não é voltada a estimular o consumo e, sim, a apoiar setores específicos da economia que necessitam de ajustes”, disse a pasta em nota. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) não quis comentar.

Fonte: Folhapress por ADRIANA FERNANDES