Uma nova produção britânica reacende debates históricos e científicos ao afirmar que Adolf Hitler apresentava alterações hormonais e genéticas, incluindo baixa testosterona e um possível caso de micropênis. O documentário Hitler's DNA: Blueprint of a Dictator (O DNA de Hitler: O Projeto de um Ditador, em tradução livre) estreia neste sábado (15) no Channel 4 e promete revelar supostos aspectos biológicos do líder nazista a partir da análise de uma amostra de sangue atribuída a ele.

Adolf Hitler na ponte sobre o rio Drau, em visita à cidade de Maribor, na atual Eslovênia — Foto: Wikimedia Commons
Produzido pela Blink Films, o documentário afirma que exames genéticos indicariam que Hitler sofria da Síndrome de Kallmann, uma condição genética rara que interfere no desenvolvimento sexual masculino durante a puberdade. Entre os efeitos da doença estão baixos níveis de testosterona, criptorquidia (testículo não descido), alterações no olfato e desenvolvimento genital reduzido.
Segundo informações divulgadas pelo portal Deadline, a produção também sustenta que o material genético analisado apresenta marcadores associados a possíveis neurodivergências. O filme sugere que Hitler teria predisposição genética para condições como autismo, esquizofrenia e transtorno bipolar. Ao mesmo tempo, descarta antigas especulações sobre uma possível ascendência judaica do ditador.
A origem da amostra analisada
De acordo com o documentário, o DNA teria sido extraído de um fragmento de tecido ensanguentado retirado do sofá onde Hitler teria se suicidado, em abril de 1945, em Berlim. O objeto estaria preservado em um museu militar na Pensilvânia, nos Estados Unidos, e teria sido submetido a análises em laboratórios especializados no Reino Unido.
A produtora Lesley Davies afirmou ao Deadline que o processo de verificação da autenticidade da amostra foi longo e criterioso. “Quando chegamos a uma correspondência genética consistente, foi necessário repetir as análises diversas vezes para garantir a confiabilidade do material”, explicou.
A confirmação teria ocorrido por meio da comparação com o DNA de um parente de Hitler pela linha paterna, obtido anos atrás por um jornalista belga durante uma investigação independente. Segundo o jornal The Guardian, houve compatibilidade total no cromossomo Y. No entanto, não há informações claras sobre o consentimento desse familiar para o uso do material genético no documentário, o que levanta questionamentos éticos.

Genética, história e controvérsia
A produção reúne análises laboratoriais e entrevistas com especialistas, entre eles a geneticista Turi King — conhecida por identificar os restos mortais do rei Ricardo III — e o historiador Alex Kay, da Universidade de Potsdam.
King explica que uma mutação específica no gene PROK2 foi apontada como o principal indício da Síndrome de Kallmann. Essa alteração genética pode impedir o desenvolvimento completo da puberdade, o que, segundo o documentário, coincide com registros médicos de 1923, quando Hitler esteve preso em Landsberg. Documentos da época mencionam que ele apresentava criptorquidia do lado direito.
Essa informação reforça rumores antigos popularizados durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo a famosa canção satírica britânica Hitler Has Only Got One Ball (“Hitler Só Tem Uma Bola”, em tradução literal).
Para o historiador Alex Kay, a possível condição médica também poderia ajudar a explicar aspectos da vida pessoal do ditador. “O desconforto de Hitler com relações íntimas e sua aparente dificuldade em manter vínculos afetivos sempre intrigaram os pesquisadores. A Síndrome de Kallmann pode lançar alguma luz sobre isso”, afirma.
Alertas contra o determinismo biológico
Apesar das revelações, o documentário tem sido alvo de críticas por tentar associar genética a comportamentos extremos. A produção utiliza pontuações de risco poligênico (PRS), um método estatístico que estima predisposições genéticas com base em grandes populações, para sugerir possíveis transtornos mentais.
Especialistas ouvidos pelo The Guardian alertam que esse tipo de análise não permite diagnósticos individuais. “Essas pontuações servem para estudos populacionais, não para afirmar que uma pessoa específica tinha determinada condição”, explica David Curtis, professor do Instituto de Genética da University College London.
A própria Turi King demonstrou cautela quanto à forma como os resultados foram apresentados. “Não podemos dizer que Hitler tinha esses transtornos. Apenas que ele estava em percentis mais elevados para alguns marcadores”, pondera. Ainda assim, críticos apontam que o documentário transforma dados estatísticos em conclusões sugestivas, o que pode induzir interpretações equivocadas.
A revista New Scientist também destacou os riscos dessa abordagem. Para o pesquisador Simon Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge, que participa do filme, fatores ambientais e sociais tiveram peso muito maior na formação de Hitler. “A violência e os abusos sofridos na infância, especialmente por parte do pai alcoólatra, são muito mais relevantes para entender o ódio e a radicalização do que qualquer traço genético isolado”, afirma





