Mesmo após redução da Selic, país permanece à frente de Rússia, Colômbia e Turquia; economista explica como cenário afeta consumidores e empresas
O Brasil voltou a ocupar a primeira posição no ranking mundial de juros reais, com uma taxa de 8,45% ao ano. O levantamento foi elaborado pela MoneYou em parceria com a Lev Intelligence e considera a diferença entre os juros praticados no país e a inflação projetada para os próximos 12 meses.
O resultado foi registrado mesmo após o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduzir a taxa Selic de 14% para 13,75% ao ano. Com isso, o Brasil aparece à frente de países como Rússia, com 6,79%, Colômbia, com 6,33%, e Turquia, com 6,25%. A média dos 40 países considerados no ranking é de 1,62% ao ano.
A taxa de juros real é obtida quando se desconta o efeito da inflação. Na prática, o indicador permite observar quanto um investimento ou uma operação financeira representa em termos de ganho efetivo acima da variação dos preços.
Juros nominais colocam Brasil na quarta posição
Quando a comparação considera apenas a taxa nominal, sem descontar a inflação, o Brasil aparece na quarta colocação entre os países analisados.
Com a Selic em 13,75% ao ano, o país fica atrás da Turquia, que registra 37%, da Argentina, com 29%, e da Rússia, com 14%. Na sequência aparecem Colômbia, África do Sul e México.
A diferença entre as posições nos dois rankings está relacionada justamente à inflação projetada. No caso brasileiro, o cálculo considera uma expectativa de inflação de 4,71% para os próximos 12 meses.
Por que os juros reais são importantes?
O economista Márcio Dourado explica que o juro real ajuda a compreender o retorno efetivo de uma aplicação depois de descontada a inflação.
Como exemplo, ele afirma que um investimento que rende 10% ao ano, em um cenário de inflação de 5%, teria um ganho real de aproximadamente 5%.
O indicador também ajuda a explicar por que mudanças na taxa básica de juros repercutem sobre diferentes setores da economia.
Segundo Dourado, a Selic funciona como uma referência para o custo do dinheiro no país. Quando permanece em patamar elevado, empréstimos, financiamentos e outras modalidades de crédito tendem a ficar mais caros.
Efeito chega ao consumidor
Na prática, a política de juros influencia desde compras parceladas até financiamentos de veículos, imóveis e empréstimos pessoais.
Dourado explica que empresas também são afetadas porque precisam considerar o custo do crédito quando buscam recursos para ampliar operações, comprar equipamentos ou iniciar novos projetos.
Com o dinheiro mais caro, investimentos que dependem de financiamento podem ser adiados ou se tornar menos viáveis financeiramente.
O economista compara a Selic a uma espécie de taxa de referência do mercado. Como as instituições financeiras e investidores consideram o retorno oferecido pelos títulos públicos, outras operações precisam levar esse parâmetro em conta.
Debate sobre o nível da taxa
Dourado também critica o atual nível dos juros e avalia que a política monetária poderia adotar outra estratégia. Para ele, embora a manutenção de juros elevados seja utilizada pelo Banco Central como instrumento para controlar a inflação, o custo dessa política se espalha pela economia.
Na avaliação do economista, o efeito pode ser percebido na redução do consumo, na dificuldade de acesso ao crédito e na postergação de investimentos.
Ele também questiona a perseguição da meta de inflação no país e afirma que o Brasil passou grande parte das últimas duas décadas tentando alcançar esse objetivo.
Cenário internacional influencia ranking
O levantamento da MoneYou e da Lev Intelligence também aponta que o comportamento das expectativas de inflação contribuiu para alterar os juros reais em diferentes países.
Entre 164 economias analisadas, 72,56% mantiveram suas taxas básicas de juros na última reunião dos respectivos bancos centrais, enquanto 21,34% elevaram os juros e 6,10% optaram por cortes.
Entre as 40 economias que integram o ranking de juros reais, o Brasil permanece no topo mesmo depois da redução da Selic. A diferença para os países seguintes também é influenciada pelas expectativas de inflação para os próximos meses.
Para o consumidor brasileiro, o cenário significa que o custo do dinheiro continua elevado. Para empresas, representa uma barreira adicional para investimentos financiados por crédito. Ao mesmo tempo, juros elevados podem aumentar o retorno real de determinadas aplicações financeiras, especialmente aquelas diretamente relacionadas às taxas de juros.








