Da Redação
Sistema desenvolvido pelo CEMPA-Cerrado permite antecipar condições da qualidade do ar em até 72 horas e acompanhar focos de incêndio e nuvens de fumaça praticamente em tempo real
Goiás passou a contar com novas ferramentas para ampliar o monitoramento das condições climáticas, da qualidade do ar e das queimadas. As tecnologias foram apresentadas pelo Centro de Excelência em Estudos, Monitoramento e Previsões Ambientais do Cerrado (CEMPA-Cerrado), da Universidade Federal de Goiás (UFG), em um momento de preocupação com o fortalecimento do El Niño e o avanço dos incêndios durante o período de estiagem.
Entre as novidades está um sistema capaz de prever a qualidade do ar em todo o território goiano com até 72 horas de antecedência. Também foram lançados um boletim semanal voltado inicialmente para a Região Metropolitana de Goiânia e uma versão atualizada da plataforma utilizada para acompanhar focos ativos de incêndio.
Qualidade do ar poderá ser prevista com três dias de antecedência
A principal novidade é a previsão da qualidade do ar para Goiás. A ferramenta fornece informações com até três dias de antecedência e poderá auxiliar órgãos públicos na adoção de medidas preventivas.
Segundo o diretor-executivo do CEMPA-Cerrado, Manuel Eduardo Ferreira, o período de 72 horas foi definido justamente para permitir que setores como saúde e Defesa Civil tenham tempo para planejar ações diante de condições consideradas desfavoráveis.
O sistema utilizado atualmente tem como base um produto desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com cobertura nacional. A intenção do CEMPA-Cerrado é aumentar a precisão da ferramenta para Goiás ao longo dos próximos meses.
A expectativa é que, até o fim do ano, o sistema apresente uma resolução espacial mais detalhada, principalmente para a Região Metropolitana de Goiânia.
Região Metropolitana terá boletim semanal
Outra iniciativa apresentada é o Boletim Semanal de Qualidade do Ar, desenvolvido em parceria com a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti).
Inicialmente, o levantamento será direcionado aos 21 municípios que compõem a Região Metropolitana de Goiânia. Os primeiros resultados apontaram uma condição moderada de qualidade do ar na capital.
Apesar disso, especialistas mantêm atenção sobre a situação de Goiânia, principalmente durante os meses de seca. A combinação entre baixa umidade, falta de chuva e concentração de partículas finas próximas à superfície pode contribuir para a piora das condições atmosféricas.
O problema pode se tornar ainda mais relevante durante períodos de queimadas, quando a fumaça e os poluentes provenientes dos incêndios aumentam a quantidade de partículas suspensas no ar.
Nova plataforma acompanha fumaça quase em tempo real
O CEMPA-Cerrado também atualizou a plataforma utilizada para monitorar focos de fogo ativo. O sistema utiliza informações fornecidas por satélites da Nasa e do Inpe.
Com a atualização, a ferramenta ganhou uma interface considerada mais intuitiva e passou a permitir o acompanhamento das nuvens de fumaça praticamente em tempo real. A defasagem das informações é de aproximadamente 15 minutos.
A tecnologia permite identificar o surgimento de um incêndio e acompanhar a evolução do fogo e de novos focos registrados nas proximidades.
As informações podem auxiliar equipes de combate a incêndios, órgãos ambientais e responsáveis pela fiscalização. A partir dos dados, gestores conseguem mobilizar brigadas, acompanhar o deslocamento do fogo e buscar informações sobre a origem das queimadas.
O monitoramento também pode ser utilizado por autoridades de saúde, uma vez que a fumaça proveniente dos incêndios está diretamente relacionada à piora da qualidade do ar e ao aumento do risco de problemas respiratórios.
Dados podem auxiliar decisões do poder público
As ferramentas foram desenvolvidas para funcionar de forma integrada. Além das informações sobre qualidade do ar e queimadas, o CEMPA-Cerrado já produz previsões meteorológicas com resolução espacial que pode chegar a cinco quilômetros.
A combinação desses dados permite construir um panorama mais detalhado das condições ambientais e oferecer aos gestores públicos informações que possam orientar decisões antecipadas.
As previsões são atualizadas diariamente. Dessa maneira, órgãos estaduais e municipais podem acompanhar mudanças nas condições meteorológicas e avaliar possíveis medidas de prevenção.
Entre as possibilidades estão a mobilização antecipada de equipes para combater incêndios florestais, fiscalização de queimadas intencionais e preparação do sistema de saúde diante de períodos com condições atmosféricas desfavoráveis.
A previsão de baixa umidade, por exemplo, pode servir de alerta para cuidados especiais com grupos mais vulneráveis, como idosos e crianças pequenas. As informações também podem orientar medidas na rede de ensino para reduzir a exposição de estudantes durante períodos críticos.
Parcerias fortalecem monitoramento climático
O desenvolvimento das novas ferramentas conta com a participação de diferentes instituições. O CEMPA-Cerrado mantém parceria com a Secti, que participa diretamente dos projetos responsáveis pela elaboração de documentos, protocolos e sistemas.
Também existem ações conjuntas com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), Defesa Civil, Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo) e Agência Municipal do Meio Ambiente.
O centro também participa do Fórum Goianiense de Mudança Climática, contribuindo para discussões relacionadas à mitigação e adaptação aos impactos das mudanças do clima.
El Niño aumenta preocupação com queimadas
O lançamento ocorre em meio às preocupações relacionadas ao El Niño. As projeções apontam para um fenômeno de forte intensidade no segundo semestre de 2026, cenário que pode contribuir para temperaturas mais elevadas e períodos prolongados de estiagem em determinadas regiões.
No Centro-Oeste, o aumento das temperaturas e a ocorrência de ondas de calor estão entre os possíveis impactos associados a episódios fortes do fenômeno. Especialistas ressaltam, contudo, que “Super El Niño” é uma expressão usada para destacar eventos excepcionalmente intensos, e não uma classificação técnica oficial.
Para Goiás, a combinação entre estiagem prolongada, temperaturas elevadas e baixa umidade aumenta a preocupação principalmente em relação aos incêndios no Cerrado.
O CEMPA-Cerrado pretende utilizar os dados coletados para aperfeiçoar modelos capazes de indicar áreas e períodos com maior risco de queimadas. A proposta é avançar também na construção de cenários sazonais, permitindo uma preparação ainda mais antecipada.
Informações também serão utilizadas em pesquisas
Além do uso pelo poder público, os dados disponibilizados pelo centro têm potencial para contribuir com pesquisas científicas realizadas dentro e fora da UFG.
Estudantes e pesquisadores já utilizam as informações em trabalhos relacionados aos efeitos dos parques urbanos na regulação climática, previsões meteorológicas e desenvolvimento de mapas dinâmicos de risco de incêndios.
A expectativa é que a ampliação das ferramentas permita novos estudos em níveis de graduação e pós-graduação e contribua para melhorar a compreensão dos impactos ambientais no Cerrado.
Para o CEMPA-Cerrado, o avanço dos eventos climáticos extremos exige uma mudança na maneira como governos e sociedade lidam com prevenção. A estratégia passa pela produção de informações mais precisas, ampliação do monitoramento territorial e fortalecimento de uma cultura de adaptação e educação climática.








